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  Escuridão colorida
NAS TERRAS ALTAS COBERTAS COM ROCHAS VERMELHAS DA ÁFRICA DO SUL, A ESCALADA AINDA PODE SER UMA QUESTÃO DE PRETO OU BRANCO. GREG CHILD SAI ESCALANDO PARA EXPLORAR OS PENHASCOS, JARDINS DE PEDRAS E COMPLICAÇÕES PÓS APARTHEID DA PRÓXIMA MECA DA ESCALADA


NOVA GERAÇÃO: o instrutor de escalada thulani mazibuko, 25 anos, nos penhascos de Waterval Boven

Há pelo menos uma boa razao para praticar escalada na África do Sul:


AS ROCHAS. As forças geológicas que transformam carvão em diamante metamorfosearam areias primordiais em paredões de sílex vermelho-vítreo que irrompem pelo país, oferecendo centenas de pontos de escalada de qualidade internacional - dos penhascos remotos de Blouberg e das rotas cercadas de pedregulhos das montanhas Cederberg, ao norte da Cidade do Cabo, até uma imensa elevação que se ergue sobre a própria cidade.

Logo ao norte do cabo da Boa Esperança, um duro vento sudeste rasga o topo da montanha Table, jogando faixas de neblina na direção das praias lotadas da Cidade do Cabo, 915 metros abaixo. Estou no meio do caminho de uma rota grau 5.10 (na escala americana, que começa no 5.0, a via mais difícil já escalada recebeu a graduação 5.15b) batizada de Triple Indirect, numa beirada no lado protegido do vento, enquanto meu amigo Ed February guia a última enfiada de corda. Ed é um nativo e, como um dos escaladores mais famosos do país, é um freqüentador assíduo desse penhasco. Aos 48 anos de idade, seu físico lembra o de um boxeador peso-pena. Quando ele grita que não está mais na corda, agarro com meus dedos as beiradas de pedra branca tão resistente como porcelana endurecida no fogo.

O espaço sob meus pés é de dar vertigens. Consigo enxergar a baía Table, onde navios holandeses ancoraram em 1652 para fundar a Cidade do Cabo. Dez quilômetros mar adentro, fica a ilha Robben, o complexo carcerário onde Nelson Mandela ficou preso por 27 anos. Subúrbios brancos cobrem a costa, enquanto os guetos negros de Guguletu e Khayelitsha formam uma linha de fumaça sobre as planícies. Termino a via e encontro Ed próximo à estação de teleférico no topo. Embora já tenha escalado esse penhasco - uma parede de 120 metros de altura - umas vinte vezes, ele está radiante de alegria. A montanha Table é onde a escalada sul-africana começou. Ed aponta ao longo da cadeia de montanhas semelhantes a fortaleza na direção de um paredão distante. "Escalado pela primeira vez em 1895", diz. Tento imaginar os vitorianos que escalaram aquele monolito com cordas de cânhamo, na época em que o lema era "O líder nunca cai".

E então tento imaginar o que Ed poderia ter a ver com esses sujeitos. Há apenas uma década, Ed não tinha permissão para freqüentar muitas rotas em seu próprio país. No apartheid - o sistema de separação racial criado pela minoria branca em 1948 - até mesmo os espaços abertos eram segregados. E Edmund C. February, doutor em botânica, palestrante universitário e possuidor de um Gold Badge (a mais alta honra dada pelo clube da elite da escalada sul-africana, o Mountain Club of South África ou MCSA), é negro.

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Edição nº 34 - Março/08
 
 
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